# Drª Karina Alvarenga

Controvérsias Nutricionais a respeito do Colesterol

1 de Agosto de 2017 às 11:05

Vivemos um momento de muita polêmica nutricional e os consumidores ficam perdidos diante de tanta informação contrária e diversificada. Esse cenário se repete em outros países e as sociedades médicas se uniram com objetivo de orientar os pacientes de forma mais completa e segura. Guiar com veracidade e ciência a saúde da população. Assim foi publicado o trabalho abaixo e respondo as perguntas propostas baseadas nessa publicação que é de alto valor científico. 

Profissionais de saúde ou leitores podem me solicitar o texto por completo que terei maior prazer em compartilhar. 

Dia 8 de agosto é o Dia Nacional de Combate ao Colesterol e é importante tirarmos algumas dúvidas.

1 – Vamos falar hoje sobre dislipidemia. Dislipidemia é o mesmo que dizer que o paciente tem colesterol alto. Realmente, precisamos nos preocupar com os níveis de colesterol, Dra Karina. Como é essa história? Colesterol é importante para o organismo ou temos que combatê-lo?

Colesterol é importante sim para o organismo, ele age na formação das membranas celulares, dos hormônios. Mas o que temos que cuidar é o excesso de colesterol associado a fatores de risco para doenças cardiovasculares. Por isso cada paciente deve ser avaliado e o seu tratamento individualizado.

2 – O que o fato de ter o colesterol alto pode proporcionar ao paciente? O que causa?

Na verdade, as primeiras observações de que o colesterol alto causava doenças vieram da Rússia. Os pesquisadores observaram que ter o colesterol mais alto aumentava o risco de ter infarto e derrame (acidente vascular cerebral). Por isso, todo adulto deve ter o seu colesterol dosado pelo menos uma vez ao ano. Individualizando o tratamento e ajustando os níveis de colesterol podemos prevenir a morte por infarto e AVC e também as sequelas que essas doenças causam.

3 – Tem uma idade específica para dosar o colesterol?

Se há história familiar, por exemplo, meu pai teve um infarto aos 50 anos de idade. Esse filho que teve um pai ou mãe ou irmão com história de doença cardiovascular precisa ficar mais atento. Hoje temos visto dislipidemia em crianças. Já se observa placas de colesterol nas artérias de adolescentes. Essa história familiar me remete a ter um cuidado maior e dosar mais precocemente o colesterol ainda quando jovem ou mesmo na adolescência.

A mesma coisa se for obeso. Pacientes obesos devem ficar mais atentos com o colesterol e dosar mais precocemente e frequentemente, mas se não há fatores de risco como esses, o colesterol deve ser dosado anualmente a partir de uma idade média de 20 anos.

4 – Quais são esses fatores de risco? Quais são as pessoas que tem que tomar maiores cuidados com seu colesterol?

São aquelas com histórias familiares de doenças cardiovasculares com infarto e AVC. As que tem diabetes, hipertensão arterial, as pessoas que não praticam atividade física, tabagismo, obesidade ou sobrepeso. Até mesmo o estresse é fator de risco para dislipidemia.

5 – Quais os sintomas o colesterol alto pode causar na pessoa? (colocar imagens)

Na verdade é uma doença silenciosa. Alguns pacientes podem apresentar sinais clínicos, mas isso é muito raro. Podem apresentar xantomas eruptivos quando o triglicérides é muito alto. Xantomas palmares que é indicativo de disbetalipoproteinemia, Xantomas tendinosos, Xantelasmas, Arco corneano. Xantomas tuberosos.

6 – Basta dosar o colesterol total, doutora?

Boa pergunta. Isso é um grande erro. Temos que dosar as frações porque muitas vezes o colesterol está alto por causa do bom colesterol o HDL. E isso é protetivo para o paciente. O HDL sempre deve estar em níveis mais elevados. Acima de 60 seria o desejável. E o LDL deve estar abaixo de 100mg/dl. Quando dosamos só o colesterol total não conseguimos definir as frações. Podemos ter um total bom mas com um HDL baixíssimo e o LDL alto e o contrário é verdadeiro. O triglicérides também deve ser dosado uma vez que também é fator de risco para doenças cardiovasculares e deve estar abaixo de 150mg/dl. Segundo a V diretriz brasileira de dislipidemia. Esses valores mudam em pacientes de alto risco com pacientes diabéticos que devem ter um colesterol LDL abaixo de 70mg/dl. 

7 – Por falar em triglicérides, ter os triglicérides altos causa as mesmas doenças que o colesterol? Infarto e AVC?

Os triglicérides altos aumentam o risco cardiovascular mas principalmente o risco de pancreatite. Pancreatite é uma inflamação muito grave no pâncreas com alto risco de mortalidade. E após a pancreatite o paciente tem maior chance de ser tornar diabético. Triglicerides alto é fator de risco para diabetes.

8 – Nós somos bombardeados com novas publicações recomendando dietas diferentes e uma hora o ovo pode outra hora é vilão. Enfim, o que dizer das dietas e o seu impacto no colesterol.

Algumas evidências científicas a respeito dessas dietas são limitadas. Isso porque não é ético fazer um trabalho científico fornecendo alimentos gordurosos e/ou sal a pacientes que tem fatores de risco cardiovasculares, pois isso aumentaria esses fatores de risco e poderia desencadear complicações como infarto e acidente vascular cerebral. Assim, na maioria das vezes o que temos são trabalhos observacionais de baixo impacto.

Mas algumas dietas demonstraram claramente seu benefício, dentre elas as dietas ricas em frutas, vegetais, grãos integrais, leguminosas e castanhas. E baixa em consumo de carnes magras e gorduras saturadas, preferindo leites e derivados com baixo teor de gordura.

Temos um grande estudo que é o REGARDS que avaliou homens brancos e negros acima de 45 anos submetidos culturalmente há 5 dietas diferentes. O padrão rico em gorduras, alimentos fritos, ovos, carnes processadas, açúcar, bebidas açucaradas foi o mais prejudicial. Levou a um aumento de 56% dos eventos cardiovasculares e 30% de derrames. Também apresentaram maiores prevalências de hipertensão, dislipidemia e diabetes tipo 2.

Recentemente, dois outros grandes estudos sugeriram aumento da mortalidade por todas as causas com maior ingestão de gorduras saturadas e proteínas animais como ovos, carnes vermelhas, peixes e carnes processadas. Sendo que o consumo de ovos esteve associado a maior incidência de câncer.

Assim as recomendações hoje são para evitar gorduras trans, alimentos fritos, ovos, miúdos, carnes processadas, açúcares no geral. Usar óleos vegetais como de canola, girassol e azeite com moderação, meio litro por adultos por mês. Evitar óleo de coco e óleo de palma. Usar com maior frequência frutas e vegetais. Castanhas devem ser usadas com moderação. E também devemos usar mais as proteínas vegetais.

9 – Mas alguns trabalhos não mostraram que não havia relação entre o colesterol da dieta e o colesterol sanguíneo? Ou seja, que o paciente podia comer gorduras a vontade?

Em 2015 o Comitê Consultivo das Diretrizes Alimentares informou não haver evidências suficientes para mostrar relação entre consumo de gordura e colesterol sanguíneo. E isso gerou confusão no consumidor. Após isso, nos anos seguintes, as novas diretrizes mostraram o contrário: que o indivíduo deve consumir o menos colesterol possível. Mas essa informação não teve tanta repercussão na mídia como a anterior. E ficou concluído que os níveis de colesterol aumentam com a ingesta alimentar.

10 – E sobre o óleo de coco que virou moda nos dias atuais? Qual a relação com o colesterol e Necessita ser evitado?

O óleo de coco é rico em ácido láurico e mirístico que são ácidos graxos de cadeia média rapidamente absorvidos pelo fígado e oxidado para produção de energia. Ambos levam ao aumento do LDL. O óleo de coco virgem preserva os polifenóis que poderiam ter benefícios cardiovasculares, mas não há bons trabalhos científicos em humanos, apenas em animais. E os trabalhos existentes são de baixo valor metodológicos. Nenhum ensaio clínico foi realizado com relação a doenças cardiológicas. Na verdade dados observacionais de populações asiáticas mostraram baixo índice de doenças cardiovasculares e essas populações tem como base o coco. Entretanto, não consomem muita gordura saturada em outras formas de alimentos e tem um padrão genético muito diferente do ocidental. Então, as recomendações ainda são para evitar.

11 – Suplementos antioxidantes podem auxiliar no colesterol e na saúde em geral?

Os trabalhos mostraram que frutas e vegetais continham antioxidantes que seriam benéficos a saúde, daí em diante a indústria de suplementos passou a divulgar que o consumo dos mesmos seria benéfico em prevenir doenças. Entretanto, trabalhos maiores foram realizados mostrando que isso não é verdade.

Quando o organismo é submetido a uma dose alta de antioxidante acontece um efeito denominado “hormesis”. Hormesis é uma resposta de dose bifásica a um estressor químico em que uma substância é benéfica em doses baixas mas prejudicial em doses altas. Doses baixas encontradas na alimentação induzem a produção endógena e são protetoras. Doses mais elevadas são ineficazes e podem bloquear a produção endógena.

12 – As nozes podem ser incluídas como padrão alimentar saudável para o coração?

As nozes podem ser incluídas como saudáveis em um cardápio de rotina, porém temos que ter contabilizadas as porções já que são altamente calóricas. Isso pode levar a obesidade e prejudicar o paciente.

13 – Alguma outra consideração, doutora?

Acrescentar atividade física, pelo menos uma hora ao dia pode auxiliar na prevenção de doenças cardíacas e abaixar o colesterol. É sempre bom lembrar.

Tendo um olhar para o futuro, sabemos que o impacto da saúde vai depender de padrões alimentares adotados hoje. Alertamos sempre para que o consumidor tenha cuidado com condutas e orientações milagrosas e sensacionalistas que muitas vezes vem baseadas em falsas promessas e evidências científicas infundadas.